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O RPG que você vê não é o RPG que você joga.

Por: DM Varzão @tendaarcana

Nos últimos anos, o RPG tem sido divulgado amplamente por criadores de conteúdo mundo a fora, através das lives e streamings de jogo. Seja por grupos já consolidados no mercado internacional, como o Critical Role, ou até mesmo por influencers brasileiros, como o Cellbit, nosso tão amado hobby vem ganhando muita visibilidade. E isso é ótimo, não é? Bom… Nem tudo são flores.É inegável que essa ampla presença traz, constantemente, novos jogadores pro meio. E é ainda mais inegável que, mesmo com jogos já consolidados no mercado, essas iniciativas aproveitam uma fatia do mercado com seus próprios produtos (Daggerheart, Ordem Paranormal, etc.).

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Mas o que muitos não percebem é que essas sessões também trazem uma série de problemas para a comunidade.

Mas vamos partir do início: Quais os benefícios que esse tipo de produto de mídia traz para o hobby?

Como brevemente citado acima, Esses programas servem de porta de entrada para milhares de pessoas, e a comunidade acaba crescendo. A cada dia que passa, é mais comum vermos novos adeptos ao jogo, focados principalmente nos sistemas mais usados nessas mesas publicadas. O Ordem Paranormal, jogo desenvolvido pelo youtuber Cellbit, e usado como sistema em suas transmissões e programas, é sucesso de vendas em todo o Brasil, e tem conquistado uma faixa de jogadores mais novos.

Além disso, é nítida a valorização por mesas completas e ricas, com peças de cenário, miniaturas e grids altamente imersivos – o que acaba também movimentando uma ótima parcela do mercado, além de fortalecer o hobby dentro do hobby, como o colecionismo, customização e pintura de miniaturas. E com toda certeza, essa exposição de todo esse tipo de material é muito benéfica pro cenário.

Mas vamos focar na questão de ser uma ferramenta de entrada pro RPG. Então, se está trazendo gente, qual o problema?

O maior problema, ao meu ver, é que esses novatos tendem a ter algumas percepções erradas do hobby.

O primeiro desses erros é esperar sessões grandiosas e verborrágicas, quase uma peça de teatro completa. Para muitas pessoas que acabaram de chegar no RPG, a interpretação tem que ser ao extremo, emocional, quase visceral. E quem está nessa comunidade há mais tempo, sabe que é muito mais fácil você encontrar um jogador introvertido e que fala o básico de suas ações (e isso não é falta de interpretação), do que um ator profissional, vencedor do Globo de Ouro. Uma boa interpretação do personagem não precisa ser feita de maneira teatral. Afinal de contas, o RPG é um jogo, acima de tudo!

Outro erro muito comum é esperar do mestre uma vivacidade, eloquência e entusiasmo exacerbados. Da mesma maneira que a grande maioria dos jogadores são mais contidos, muitos mestres também são. Nem todo mestre fica fazendo vozes diferentes pra cada um dos personagens. Nem todo mestre narra como se tivesse gravando um audiobook. O dever do mestre é, primordialmente, ser um bom condutor da mesa e contador de histórias. De novo, ninguém aqui é o Morgan Freeman.

O que muitos não sabem é que grande parte desses programas possuem um pré-roteiro, onde o foco da campanha é cativar quem assiste. É claro que os participantes se divertem, improvisam e são espontâneos em muita coisa, mas existe uma timeline a ser seguida. É preciso entender que esse tipo de programa é um conteúdo de entretenimento, focado quase totalmente no consumidor. Os personagens são estudados, discutidos previamente. Ideias são elaboradas em conjunto e “testadas”, pra garantir o melhor resultado na transmissão/gravação. Além disso, quando não acontece no formato live, há ainda uma elaborada edição, melhorando o ritmo, deixando o material mais dinâmico e ágil. Tudo isso, buscando garantir ao máximo capturar a atenção de quem assiste. Diferente de uma sessão real de RPG, ali não há espaço pra erros. Raramente haverá pontas soltas ou furos na narrativa, pois há uma orquestração prévia. Diferente do RPG real, que muitas vezes coisas saem do controle, histórias são mudadas, fatos esquecidos, tempos são tomados para resolução de problemas por parte do mestre, e por aí vai. Mas como nesse caso, o compromisso maior é com a diversão dos envolvidos, esses detalhes passam batidos (e muitas vezes nem são percebidos).

É necessário ter em mente, ao acompanhar esse tipo de conteúdo, que ele não reflete totalmente a realidade do RPG. Está mais para “uma série sobre RPG”. Nesse mesmo sentido, quando focamos nos produtores mais relevantes desse meio, novamente o Critical Role, devemos compreender que todos ali são muito mais do que jogadores e mestre. Os participantes são atores e dubladores de verdade, o que muda completamente a questão.

Se por um lado, grande parte dos problemas de expectativa são por conta do nível de “atuação”, alguns outros problemas estão muito mais ligados à formação do grupo em si. Geralmente, os elencos desses programas são bem grandes, inclusive com rotatividade de membros e personagens. Se o recém-chegado entra no hobby, procurando um grupo semelhante, a chance de se decepcionar é enorme. Quem está há mais tempo na parada, sabe a dificuldade que é manter um grupo minimamente funcional. Por anos mestrei pra apenas dois jogadores. Assim como para seis jogadores. Infelizmente, grupos de RPG são muito inconstantes, e a vida de cada um faz com que a logística do grupo seja muito difícil. Ainda vou mais longe. Se procurar ou montar um grupo grande já é difícil, imagina mestrar pra esse grupo sendo um iniciante no RPG! É inegável que é muito mais fácil conduzir o jogo pra um grupo pequeno.

Todos esses pontos, em conjunto, se orquestram pra apresentar o maior de todos os problemas: uma falsa imagem do RPG. Será que RPG é isso mesmo? Será que aventuras de RPG precisam ser iguais à um episódio de A Lenda de Vox Machina? Com toda a certeza, não! Felizmente, é possível notar também o surgimento de diversos produtores de conteúdo que falam e mostram um RPG mais tradicional, abordando estilos de jogo menos televisivos e focados na diversão dos próprios participantes, e não daqueles que assistem.

Você pode estar lendo esse texto até aqui, pensando que eu considero esse tipo de produto como algo descartável e que não agrega em nada ao cenário. Mas isso está equivocado. Podemos ver sim, com bons olhos, esse tipo de iniciativa, que abre as portas para novos jogadores e movimenta o cenário (e o mercado) do RPG. Afinal de contas, tendo novos adeptos, gradativamente esses RPGistas vão entendendo os diversos estilos de jogo, podendo explorar esse amplo cenário e se encaixar onde achar melhor. E obviamente, muitos vão querer jogar somente no estilo dos episódios streamados. E tudo bem! Tem espaço pra todos! Não há problema se um novato descobriu que gosta, na verdade, de Ordem Paranormal, e não de RPG como um todo. No fim, a comunidade só tem a ganhar com essa pluralidade e variedade de estilos. E que bom que tem gente mostrando o RPG pro grande público. Mesmo não refletindo ou transmitindo na sua totalidade o que realmente é uma sessão de RPG, esses são excelentes conteúdos baseados no RPG de mesa, e via de regra, muito divertidos de serem acompanhados.

Portanto, se você é mestre, e está chegando nesse mundo por conta desses programas, relaxe! Não crie expectativas visualizando campanhas e aventuras semelhantes àquelas que você assiste. E o mesmo vale para você, jogador. Se você não se sente confortável em atuar em primeira pessoa, fazendo vozes e trejeitos do seu personagem, fique tranquilo! O mais importante é você saber transmitir suas ideias e ações. E bora se divertir! O bom RPG não é o que parece bonito de assistir. É o que você não esquece depois de jogar!

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